ALÉM DA CIRURGIA SEGURA

IMPLEMENTAÇÃO DE UM PROTOCOLO DE EXAME SEGURO EM
UM HOSPITAL DE OFTALMOLOGIA EM CURITIBA/PR

1. RESUMO

Esse trabalho apresenta a metodologia implementada em um hospital de oftalmologia no Estado no Paraná, na cidade de Curitiba, para um protocolo de exame seguro, impactando diretamente na qualidade do atendimento e segurança do paciente. Mundialmente, muito se fala em cirurgia segura, sendo inclusive o tema pauta de campanhas pela própria OMS (Organização Mundial de Saúde), uma das metas internacionais de segurança do paciente e ações de iniciativas nacionais, dentro do PNSP (Programa Nacional de Segurança do Paciente), porém, pouco se ouve falar sobre processos para exames seguros, como por exemplo o uso de listas de verificação com etapas e marcadores de segurança estabelecidos, como ocorre na cirurgia segura. Sabemos que exames oftalmológicos são processos complexos, com diversas etapas e riscos inerentes e, muitas vezes, ignorados, tais como, falhas e incidentes na administração de medicamentos (ex.: flebites, extravasamentos, alergias ao contraste, entre outras), quedas, troca de resultados de exames e intercorrências clínicas com o paciente. Como o hospital já possuía há muitos anos um protocolo de cirurgia segura implementado, em 2024, a partir dos aprendizados e com foco nos ciclos de melhoria, implementou também um protocolo de exame seguro, abrangendo cinco etapas: atendimento na recepção, antes da dilatação, durante a dilatação, antes de iniciar o exame (time in) e após o exame (time out). A implementação deste protocolo foi essencial para aumentar exponencialmente a cultura de segurança do paciente, gerar um processo de diagnose de alta confiabilidade e minimizar o risco de incidentes/eventos adversos e suas consequências, tanto para o próprio paciente, como para os profissionais e para o próprio hospital.

2. INTRODUÇÃO

A Portaria nº 529/2013 do Ministério da Saúde instituiu o PNSP (Programa Nacional de Segurança do Paciente) um marco histórico em nosso país, que visa prevenir, monitorar e reduzir a ocorrências de falhas/incidentes durante a assistência, promovendo a melhoria contínua dos processos que envolvam pacientes, familiares e todo o sistema de saúde, bem como estabelecendo que um conjunto de protocolos básicos, definidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), deva ser elaborado e implantado (Brasil, 2013). 

O foco em segurança do paciente nos serviços de saúde cresceu consideravelmente em importância nos últimos anos, fato que se deve às alterações significativas que ocorreram no ambiente de saúde, influenciadas pelo progresso científico e tecnológico nas áreas clínicas, bem como pela maior disponibilidade de serviços e pela disseminação global de informações de saúde. Em 2004 a OMS (Organização Mundial de Saúde) estabeleceu a World Alliance for Patient Safety (Aliança Mundial para Segurança do Paciente), que posteriormente passou a chamar-se Patient Safety Program (Programa de Segurança do Paciente). Dentro das ações estratégicas desse programa, foram definidas uma série de metas internacionais de segurança do paciente para melhorar a qualidade dos cuidados de saúde em todo o mundo e em todos os tipos de serviços de saúde, incluindo os de oftalmologia. 

Dentre todas essas ações, merecem destaque as seis metas internacionais de segurança do paciente, visto a sua simplicidade para implementação e impactos efetivos na qualidade da assistência. Essas metas surgiram como resultado de uma colaboração global para eliminar ou reduzir os riscos, bem como em resposta à crescente conscientização sobre a importância da segurança do paciente e os desafios enfrentados nos serviços de saúde em maior ou menor escala, conforme as realidades epidemiológicas e culturais. Elas visam prevenir incidentes de segurança e, consequentemente, melhorar os desfechos clínicos e a experiência do paciente. Implementar de maneira prática e proativa essas metas traz uma abordagem preventiva que garante, sobremaneira, a segurança dos pacientes durante toda a jornada do atendimento. 

O Programa “Cirurgias Seguras Salvam Vidas”, proposto em 2008 pela OMS, contempla dez objetivos essenciais para a realização de uma cirurgia segura, que englobam a conferência de que o paciente e o local correto estão sendo operados, que a equipe está preparada para impedir danos que possam vir a ocorrer com relação a administração de anestésicos, manejo de via aérea, perda sanguínea, infecção, retenção de compressas e/ou instrumentais e encaminhamento de espécimes cirúrgicos e que a comunicação efetiva deverá ser implementada (WHO, 2009; Porcari et al, 2020). 

Nesse sentido, o Manual de Cirurgia Segura explicita a importância de sua implementação em todos os locais dos estabelecimentos de saúde em que sejam realizados procedimentos quer terapêuticos, quer diagnósticos, que impliquem em incisão no corpo humano ou em introdução de equipamentos endoscópicos, dentro e fora de centro cirúrgico, por qualquer profissional de saúde. O manual sugere uma Lista de Verificação de Segurança Cirúrgica e orienta que todas as instruções contidas neste protocolo deverão ser adequadas à realidade de cada instituição, respeitando-se os princípios de cirurgia segura (Brasil, 2013). 

A Lista de Verificação de Segurança Cirúrgica é caracterizada como um checklist e apresenta os seguintes momentos: antes da indução anestésica (sign in), antes da incisão cirúrgica (time out) e antes da saída do paciente da sala de cirurgia (sign out) (Brasil, 2013). O uso de checklists vem sendo amplamente utilizado em centros cirúrgicos no contexto hospitalar e recomendados pelo Ministério da Saúde como medida de segurança para eventos adversos.

Neste contexto, foi observada pelo hospital apresentado no presente trabalho, a necessidade de aprimorar a segurança no atendimento do paciente durante a realização de exames de diagnose. Para tanto, foi necessário, assim como as cirurgias seguras, criar um instrumento de segurança, chamado então de Lista de Verificação de Exame Seguro. 

Embora o estudo realizado por Porcari e demais autores (2020) tenha apresentado um modelo adaptado para procedimentos ambulatoriais, acredita-se que a relevância em apresentar este modelo, possa contribuir com realidades ambulatoriais específicas para atendimento a pacientes com perfil de assistência oftalmológica. Destarte, este estudo ancora-se ainda na lacuna percebida na literatura para produções evidenciando a interface da segurança do paciente em contextos fora da perspectiva cirúrgica. Corrobora neste sentido, Santos et al (2008), quando destacam que as Listas de Verificação existentes não atendem as especificidades dos procedimentos a nível de diagnose. 

Assim, a descrição desta experiencia tem como questão norteadora: Como foi organizado e quais foram os principais resultados da experiência de implantação do protocolo de exame seguro em oftalmologia? Para responder à questão ora apresentada, tem-se como objetivo: descrever a experiência da implantação do protocolo.

3. OBJETIVOS

3.1 – Objetivo gerais:

• Apresentar as etapas de implementação de um protocolo de exame seguro em um hospital de oftalmologia.
• Apresentar a Lista de Verificação de Exame Seguro.
• Demonstrar como o processo, proporcionou segurança e qualidade.


3.2 – Objetivos específicos:
• Oportunizar o aprendizado e reflexões sobre a importância da segurança em diagnose oftalmológica.
• Apresentar os facilitadores e dificultadores enfrentados na implementação do processo.
• Gerar benchmarking para outros serviços de oftalmologia.

4. MATERIAIS E MÉTODOS

4.1 - Cronograma de implementação

O início da implementação ocorreu em janeiro de 2024 e foi concluído em julho do mesmo ano. Este período foi cuidadosamente planejado para garantir que as transições no processo de diagnose fossem feitas de forma gradual e eficiente.

4.2 - Equipe do projeto

Andressa Arcega (Supervisão de Atendimento)
Karla Garcia Soares (Núcleo de Gestão da Qualidade)
Leander Estacheski (Tecnologia da Informação).
Rodrigo Della Torres (Núcleo de Gestão da Qualidade)
Viviane Serato (Gerência Geral)
Wanessa Bello (Enfermeira responsável pela Diagnose)

4.3 - Custos envolvidos

Não houve custo envolvido na implementação do projeto.

4.4 - Impactos esperados

• Aumento da segurança nos exames de diagnose, garantindo que todas as etapas de verificação são realizadas e formalizadas, eliminando/reduzindo a chance de ocorrência de incidentes.
• Melhoria na organização e registro das informações da assistência, especialmente da instilação de colírios (dilatação), gerando um prontuário de diagnose mais adequado.
• Melhorias em fases do processo que atualmente estão frágeis (ex.: mudança de lateralidade do exame pelo Médico).
• Implementação de uma Lista de Verificação de Exame Seguro.
• Aumento da percepção de segurança pelo paciente, acompanhante e profissionais.
• Aumento da cultura de segurança do paciente.

4.5 - Detalhes da implementação

O Núcleo de Gestão da Qualidade do hospital, a partir do monitoramento de processos e foco na excelência e melhoria contínua idealizou o projeto e o apresentou para a equipe da CCISP (Comissão Interna de Prevenção e Segurança do Paciente). A partir da análise e aprovação, seguiu-se para a construção do plano de trabalho, que seguiu as seguintes etapas principais:

1º. Elaboração da proposta de Lista de Verificação para Exame Seguro.
2º. Apresentação pelo Núcleo de Gestão da Qualidade para as Supervisões de Diagnose e de Atendimento da proposta inicial da Lista de Verificação para Exame Seguro.
3º. Análise e ajustes na Lista de Verificação para Exame Seguro.
4º. Apresentação da Lista de Verificação para Exame Seguro para análise e aprovação da Gerência Geral.
5º. Entrega da Lista de Verificação para Exame Seguro para o setor de Tecnologia de Informação.
6º. Elaboração e disponibilização eletrônica (Sistema Tasy) da Lista de Verificação para Exame pela Tecnologia da Informação.
7º. Análise do instrumento eletrônico elaborado, sendo realizado ajustes pela equipe de Tecnologia da Informação.
8º. Validação final do instrumento eletrônico.
9º. Realização do primeiro teste piloto formal, com a participação dos profissionais do Atendimento e Diagnose para avaliação crítica do processo, seus facilitadores e dificultadores, bem como com foco no envolvimento dos profissionais, garantindo assim maior adesão ao processo, quando em sua implementação definitiva.
10º. Discussão dos achados no primeiro teste piloto e implementação de melhorias provenientes das contribuições dos profissionais participantes.
11º. Treinamento formal com as equipes de profissionais do Atendimento e Diagnose para implementação definita do protocolo de exame seguro.
12º. Realização do segundo teste piloto formal, após refinamentos no instrumento eletrônico, com a participação dos profissionais do Atendimento e Diagnose.
13º. Discussão dos achados no primeiro teste piloto e implementação de melhorias provenientes das contribuições dos profissionais participantes.
14º. Divulgação do processo a ser implementado nos canais internos institucionais.
15º. Implementação integral da Lista de Verificação de Exame Seguro: para todos os exames e pacientes atendidos no hospital.
16º. Monitoramento da adesão.
17º. Registro e implementação de melhorias.

4.6 - Protocolo para Exame Seguro
1ª versão - fase de prototipagem 1

Em janeiro/2024 o Núcleo de Gestão da Qualidade elaborou e apresentou a primeira versão da Lista de Verificação para Exame Seguro, composta de 5 etapas principais com marcadores específicos de qualidade e segurança. Abaixo, segue o protótipo elaborado e apresentado:

Essa lista de verificação foi analisada criticamente pela Supervisão de Atendimento e de Diagnose e, na sequência, o Núcleo de Gestão da Qualidade, estruturou uma pesquisa de opinião para que os profissionais do Atendimento e Diagnose, pudessem manifestar suas percepções positivas e negativas em relação ao processo, visto que, ambas as áreas seriam diretamente impactados pela implementação.

Apresenta-se abaixo o resultado dessa pesquisa, com a participação da totalidade de profissionais dos setores (adesão de 100%).

4.7 - Protocolo para Exame Seguro
2ª versão - fase de prototipagem 2

A partir dos achados na pesquisa de opinião, o Núcleo de Gestão da Qualidade e Supervisões de Atendimento e Diagnose, analisaram os resultados, validaram os pontos pertinentes e apresentaram à Tecnologia da Informação o modelo proposto para informatização no Sistema Tasy. Segue abaixo a 2ª versão da Lista de Verificação de Exame Seguro:

A partir dessa construção, efetivamente no dia 29/07/2024 se iniciou de forma prática a implantação do processo. Após o uso efetivo pelos profissionais ainda se evidenciou possibilidades de melhorias na lista, sendo elas:
• Verificada ausência de informações importantes no campo “Dados do Paciente”, como: CPF, Sexo, Código do IAS (informação que deveria vir do banco de dados, para identificação do paciente nos aparelhos da Diagnose), Telefone.
• A visualização das etapas seguintes não era clara, tanto para a Recepção, quanto para a Diagnose, não ficando nítidos os campos a serem assinalados.
• Foi solicitada a colocação do nome do atendente da Recepção, para melhor identificação.
• Solicitada a inclusão da opção do envio do laudo via WhatsApp e a opção de declaração/ atestado.

4.8 - Protocolo para Exame Seguro
3ª versão - ciclo de melhorias

4.9 - Protocolo para Exame Seguro
4ª versão - novo ciclo de melhorias

Com alguns meses de uso, em julho/24, novas oportunidades de melhorias foram percebidas, sendo elas:

• Nessa versão, verificamos que a ficha acabou ficando poluída na etapa dos dados do paciente, muitas informações juntas (foi realizado a distribuição das informações com espaços adequados).
• Solicitado que fosse colocado em Negrito as opções de laudo online e atestado e declarações.

• Solicitado colocar a opção de visualização de agendas futuras e consulta pré-anestésica.
• Foi realizado a unificação de atendimentos com procedimentos nos casos em que o paciente vem fazer exames pelo convênio e particular.

5. DISCUSSÃO FINAL

5.1 – Pontos facilitadores na implementação:

  • Existência de um sistema informatizado robusto e personalizável (Sistema Tasy).
  • Inclusão dos profissionais que iriam ser impactados com a implementação do protocolo de exame seguro, como membros ativos, dando ouvido as suas percepções e inquietações.
  • Setores com processos bem-organizados.
  • Alinhamento do projeto ao planejamento estratégico institucional.
  • Atuação multiprofissional: Tecnologia da Informação, Enfermagem, Diagnose e Qualidade.
  • Cultura de segurança do paciente e modelo de gestão da qualidade bem implementado e for-talecido no hospital.

5.2 – Pontos desafiadores na implementação: 

  • Adesão inicial dos profissionais do Atendimento e da Diagnose ao projeto.
  • Monitoramento constante do protocolo de exame seguro, confirmando se o definido está sendo efetivamente praticado.

6. RESULTADOS

Procuramos mostrar através deste trabalho, que a segurança nas etapas de exames de diagnose é de extrema importância para qualquer serviço de oftalmologia, tão quanto, o processo de cirurgia segura. Como as pessoas são parte importante desse processo, a educação contínua dos profissionais de saúde e monitoramento constante da adesão as boas práticas são fundamentais, para garantir a conformidade perene no processo. Destacamos que a implantação do protocolo de exame seguro nos trouxe diversos benefícios, citados ao longo desse trabalho, mas não podemos deixar de destacar dois em especial:

  • Aumento da percepção de qualidade e segurança pelos pacientes, acompanhantes e profissionais.
  • Conformidade técnica/legal com a formalização de um prontuário da Diagnose, registro das medicações prescritas, bem como checagem de administração contendo hora e profissional.

Em conclusão, a área de diagnose em um hospital/clínica de oftalmologia é uma atividade crucial que demanda atenção e rigor por parte dos profissionais de saúde. Ao lidar com etapas diversas e com riscos específicos, torna-se essencial implementar medidas eficazes para prevenir eventos adversos.


Ao enfrentar os desafios inerentes é possível promover uma prestação de cuidados oftalmológicos de qualidade, otimizando os recursos disponíveis e priorizando a saúde e o bem-estar dos pacientes. Em última análise, a implementação de práticas robustas de segurança em exames de diagnose reflete o compromisso contínuo do nosso hospital com a excelência clínica e a segurança do paciente.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Madalozzo, M. M. et al (2021). Culture of patient safety in an accredited high complexity hospital. Research, Society and Development, 10(6), e55510616113. https://doi.org/10.33448/rsd-v10i6.16113.
Ministério da Saúde (BR). (2013). Portaria Nº 529, de 1º de abril de 2013. Institui o Programa Na-cional de Segurança do Paciente (PNSP). Diário Oficial da União. 2013 abr 02 [citado 2018 jun 04]; 150 (62 Seção 1): 43-4. http:// www.aeciherj.org.br/docs/portaria-529_2013.pdf
Porcari, T. A., Cavalari, P. C. F., Roscani, A. N. C. P., Kumakura, A. R. S. O, Gasparino, R. C. Safe surgeries: elaboration and validation of a checklist for outpatient surgical procedures. Rev Gaúcha Enferm. 2020; 41:e20190321. https://doi. org/10.1590/1983-1447.2020.20190321.
Reason, J. (2000). Human Error: Models and Management. BMJ: British Medical Journal, 320(7237), 768–770. http://www.jstor.org/stable/25187420.

World Health Organization (CH). (2009). WHO guidelines for safe surgery, 2009: safe surgery saves lives. Geneva: WHO. https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/44185/9789241598552_eng.pdf;jsessionid=B2D781262C7E26D33992E95EF2BA1020?sequence=1.

 

AUTORES

Rodrigo Della Torres / Andressa Arcega / Viviane Serato / Wanessa Bello